Há princípios no Candomblé que o tornam mais do que uma religião; eles a transformam em um compromisso com a ancestralidade, com os Orixás e com os fundamentos transmitidos ao longo das gerações. Essa tradição não se sustenta apenas pela fé, mas pelo respeito, pela disciplina e pela seriedade com que cada praticante assume sua jornada espiritual. Ser parte dessa caminhada exige conduta, responsabilidade e lealdade aos ensinamentos dos mais velhos, pois é através dessa continuidade que o axé se mantém vivo e poderoso.
Nos tempos atuais, em meio a tantas mudanças e tentativas de flexibilizar a tradição, é essencial resgatar os princípios que sustentam o verdadeiro Candomblé. Não se trata de uma religião moldável às conveniências individuais, mas de um sistema sagrado que segue uma estrutura, uma hierarquia e um conjunto de valores que garantem sua força e autenticidade. Aqueles que tentam reinventá-la sem compreensão da base acabam por diluir seu próprio axé, pois sem raiz, não há crescimento verdadeiro.
Ao longo da minha caminhada como Ogan, filho biológico de um Ogan que considero meu maior mestre, tive a oportunidade de aprender com figuras sábias que moldaram minha compreensão da religião. Muitas lições demoraram anos para fazer sentido, mas quando finalmente compreendi, percebi o quão fundamentais elas eram para a preservação do axé. Refletindo sobre o atual panorama do Candomblé, concluí que existem 25 princípios que, se assimilados e praticados desde a base da formação de um filho de santo, poderiam evitar muitos desvios e fortalecer ainda mais nossa tradição.
Esses princípios abordam o respeito à hierarquia, a conduta ética, o compromisso com Orixá e a valorização da coletividade. Nenhum iniciado cresce sozinho, nenhum ensinamento deve ser banalizado e nenhuma tradição deve ser negligenciada. Se esses valores forem resgatados e vividos com comprometimento e verdade, garantiremos um Candomblé mais sólido, respeitado e fiel às suas raízes.
Neste artigo, exploramos os 25 princípios fundamentais no Candomblé, trazendo reflexões sobre como cada um deles pode transformar a caminhada dentro do axé. Mais do que palavras, são ensinamentos que, se colocados em prática, fortalecem o caráter, o compromisso e a conexão com o sagrado. Que cada filho de santo possa encontrar nesses princípios um guia para trilhar um caminho de respeito, seriedade e devoção dentro do Candomblé.
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O Respeito à Hierarquia e à Tradição
No Candomblé, o respeito não é apenas um valor, mas a base que sustenta toda a estrutura da religião. Desde os tempos mais antigos, os ensinamentos dos Orixás e dos ancestrais foram transmitidos através da hierarquia, garantindo que o conhecimento sagrado fosse preservado e passado adiante com responsabilidade. Dentro do terreiro, ninguém ocupa um lugar por acaso; cada posição tem um propósito e um significado dentro da organização espiritual.
Uma das primeiras lições que um iniciado deve aprender é que a saudação sempre parte do mais novo para o mais velho. Esse gesto não é um simples cumprimento, mas um reconhecimento do tempo de caminhada e da experiência acumulada por aqueles que vieram antes. Não importa a opinião pessoal ou a relação interpessoal—o respeito é inegociável. Ignorar essa regra não é apenas falta de educação, mas um rompimento com um dos pilares que sustentam a harmonia dentro do terreiro.
Além disso, o espaço sagrado deve ser tratado com reverência. O quarto de santo, os assentamentos, a roda do Xirê e cada ambiente do terreiro são territórios de conexão com o divino, carregados de força e energia ancestral. Nada ali está por acaso; cada elemento, cada objeto e cada ritual possuem um significado profundo. Ao adentrar esses espaços, a postura deve ser de respeito absoluto, evitando conversas paralelas, brincadeiras inadequadas ou qualquer tipo de comportamento que possa desviar a atenção do sagrado.
O respeito também se manifesta na forma como cada filho de santo encara sua jornada dentro do axé. A hierarquia no Candomblé não é um sistema de opressão, mas um caminho de aprendizado, onde cada estágio da caminhada ensina lições essenciais. Quem tenta pular etapas, questiona fundamentos sem conhecimento ou desvaloriza os mais velhos demonstra imaturidade e falta de compromisso com a tradição. O aprendizado não acontece apenas por palavras, mas pela vivência diária e pela humildade em reconhecer que sempre há mais a aprender.
Respeitar a hierarquia e a tradição não significa aceitar tudo sem questionamento, mas compreender que o Candomblé se fortalece na coletividade e na transmissão legítima dos saberes. Aqueles que caminham com essa consciência não apenas fortalecem seu próprio axé, mas contribuem para que a religião siga viva, íntegra e fiel às suas raízes.
O Compromisso com o Conhecimento e com a Palavra
No Candomblé, o conhecimento não é um direito adquirido, mas um merecimento conquistado pela postura, pela paciência e pelo compromisso com a tradição. A sabedoria dos mais velhos não é transmitida de maneira indiscriminada, mas passada àqueles que demonstram estar prontos para recebê-la. Cada ensinamento dentro do axé vem no tempo certo e só é entregue a quem já mostrou maturidade suficiente para honrá-lo.
O iniciado que recebe um ensinamento e o compartilha com quem não tem direito de conhecê-lo quebra um dos princípios mais sagrados do Candomblé: a confiança. A palavra dentro da religião tem peso, e um segredo revelado a quem não está preparado pode se tornar um risco, tanto para quem fala quanto para quem ouve. O axé não aceita leviandade, e quem desrespeita o silêncio necessário para proteger o sagrado demonstra imaturidade e falta de compromisso com sua própria caminhada espiritual.
Além disso, o verdadeiro aprendizado no Candomblé não se dá apenas pela teoria, mas pela prática diária e pelo exemplo. Não adianta falar sobre respeito se a postura não reflete esse compromisso. Um filho de santo não é reconhecido pelo que diz, mas pela forma como age, pela sua conduta diante dos ritos, pela maneira como se comporta dentro do terreiro e pelo zelo com que preserva o que aprende. O axé não se manifesta em discursos vazios, mas na coerência entre palavra e ação.
Por isso, antes de buscar o saber, o iniciado deve buscar a retidão no caráter, a humildade na convivência e a paciência no aprendizado. Os ensinamentos vêm para aqueles que demonstram compromisso com o axé, pois o conhecimento sagrado não é uma conquista para vaidade pessoal, mas um instrumento para fortalecer a religião e a coletividade. Aquele que respeita os tempos do aprendizado, protege os segredos e age com responsabilidade será naturalmente conduzido ao saber legítimo, transmitido por aqueles que vieram antes.
Comprometer-se com o conhecimento no Candomblé é muito mais do que acumular informações; é demonstrar maturidade para lidar com os mistérios da tradição, é agir com lealdade à confiança dos mais velhos e é entender que cada palavra carregada de axé tem um propósito e um destino certo. Quem honra esse princípio fortalece não apenas sua caminhada, mas o próprio Candomblé, garantindo que a sabedoria ancestral continue viva e respeitada para as gerações futuras.
A Postura Diante dos Orixás e da Comunidade
No Candomblé, a relação com os Orixás deve ser fundamentada no compromisso, na entrega sincera e na lealdade à tradição. Orixá não é um atalho para conquistas pessoais, nem uma moeda de troca para desejos momentâneos. Quem busca a religião apenas para pedir, mas não para servir, ainda não compreendeu a profundidade do axé e o que significa verdadeiramente pertencer ao culto. O compromisso com o Orixá não é um contrato de conveniência, mas uma aliança espiritual que exige dedicação, respeito e responsabilidade.
A displicência não tem espaço dentro do axé. O Candomblé exige seriedade, constância e comprometimento real. Não basta vestir o branco e frequentar a casa de santo apenas quando convém—a verdadeira entrega acontece no dia a dia, na participação ativa e na forma como cada um honra sua fé em cada atitude. Preguiça, desleixo e vaidade são incompatíveis com a postura de um verdadeiro filho de santo. Orixá vê cada gesto, e a postura do iniciado demonstra se ele está verdadeiramente disposto a caminhar dentro da religião ou se apenas busca os benefícios sem compreender os deveres.
Além do respeito aos Orixás, é fundamental compreender que ninguém cresce sozinho dentro do Candomblé. A iniciação não transforma um indivíduo em uma ilha, mas o insere dentro de uma coletividade, de uma família espiritual. Assim como não se ergue uma casa sem fundamentos sólidos, nenhum iniciado se sustenta sem o apoio da comunidade, sem o respeito pela hierarquia e sem a troca genuína dentro do terreiro. Cada um tem um papel dentro da estrutura do axé, e quando um se fortalece, todos crescem juntos.
Desconsiderar os irmãos de santo é desconsiderar a própria essência da religião. Um filho de santo que não respeita a coletividade, que não cuida da casa que o acolhe e que não valoriza aqueles que compartilham sua jornada, demonstra desrespeito pelo próprio Orixá que o guia. O respeito não deve ser direcionado apenas para cima, aos mais velhos, mas também para os lados, aos irmãos de caminhada, pois é na união que o axé se multiplica.
No Candomblé, a postura de um iniciado diante do Orixá e da comunidade define sua caminhada dentro da religião. Quem compreende que o compromisso é constante, que a coletividade é essencial e que o respeito sustenta toda a estrutura do axé, constrói uma base sólida para sua evolução espiritual. Orixá não fortalece quem caminha sozinho, mas quem sabe se colocar com humildade, responsabilidade e comprometimento dentro da sua casa de santo.
O Caráter Como Base do Axé
Dentro do Candomblé, não há axé sem caráter. O verdadeiro poder espiritual não se mede pelo tempo de iniciação, pelo conhecimento acumulado ou pelo cargo ocupado dentro do terreiro, mas pela forma como o indivíduo conduz sua vida e suas relações. O conceito de Ìwà Pẹ̀lẹ́, ou bom caráter, ensina que nenhuma força espiritual pode estar acima da conduta correta. Orixá não sustenta aqueles que agem com deslealdade, que não cumprem suas obrigações ou que usam a religião para alimentar vaidades e interesses pessoais.
A palavra dentro do Candomblé tem peso. Se um filho de santo não mantém seu compromisso, espalha intrigas, desrespeita os mais velhos ou se comporta de maneira desonrada, ele próprio enfraquece seu axé. O conhecimento pode ser adquirido, as obrigações podem ser feitas, mas se o caráter não for firme, a espiritualidade não se sustenta. Quem desrespeita a confiança da comunidade e dos Orixás, cedo ou tarde, colherá as consequências das suas ações.
Por isso, antes de falar ou agir no calor do momento, reflita se essa atitude seria aprovada pelo Orixá. Nenhuma palavra dita pode ser retirada depois, e muitas situações de conflito poderiam ser evitadas se as pessoas praticassem mais paciência, mais escuta e mais discernimento. O Candomblé ensina que toda história tem três lados: o seu, o do outro e a verdade real. E Orixá sempre pesa pela verdade real. Quem age por impulso, movido pelo orgulho ou pela necessidade de estar certo, muitas vezes se afasta do próprio caminho e se perde dentro da religião.
O caráter de um iniciado não se prova nos momentos de bonança, mas na forma como ele lida com os desafios e com as adversidades. A humildade para reconhecer erros, a responsabilidade para cumprir a palavra e a lealdade com os fundamentos do Candomblé são marcas de quem construiu um axé sólido e verdadeiro. A espiritualidade não pode ser um escudo para más condutas—quem acredita que pode esconder ações erradas atrás do nome do Orixá, cedo ou tarde, se depara com a justiça do próprio sagrado.
Por fim, Orixá não fortalece quem desonra sua própria caminhada. O axé cresce onde há verdade, retidão e compromisso com a ancestralidade. Quem deseja ser respeitado dentro do Candomblé precisa, antes de tudo, respeitar a si mesmo, manter sua palavra e honrar os ensinamentos que recebeu. O bom caráter é a base que sustenta toda a caminhada dentro do axé, e sem ele, qualquer poder espiritual se desfaz como areia ao vento.
A Humildade e a Sabedoria no Caminho do Axé
No Candomblé, humildade e sabedoria caminham lado a lado. O orgulho desmedido, a necessidade constante de reconhecimento e a arrogância são armadilhas que enfraquecem o axé e desviam o iniciado do verdadeiro propósito da religião. O aprendizado dentro do terreiro não é uma competição, mas um processo de amadurecimento espiritual, onde cada um recebe o que está pronto para carregar. O verdadeiro filho de santo não precisa se impor pelo grito, pela força ou pela vaidade—sua postura, sua conduta e sua paciência falam por ele.
Ser confiante dentro do Candomblé não significa ser arrogante, e ser humilde não significa ser submisso. A força de um iniciado não está na soberba, mas na sua capacidade de absorver ensinamentos, de respeitar o tempo do aprendizado e de compreender que ninguém cresce sozinho dentro do axé. A humildade não é sobre se diminuir, mas sobre reconhecer que sempre há algo a aprender e que o conhecimento se constrói na troca e na experiência vivida.
Além disso, a memória é um dos maiores tesouros dentro da religião. No Candomblé, muitos ensinamentos só fazem sentido depois de anos, e aqueles que têm paciência para guardar cada lição em silêncio e refletir sobre ela no tempo certo se tornam verdadeiros guardiões do conhecimento. A lição dada é a lição aprendida, mas só para aqueles que sabem escutar e absorver. O saber não está em discursos decorados, mas na vivência diária, na observação atenta e no respeito ao que foi transmitido pelos mais velhos.
O axé não se sustenta na pressa, na impulsividade ou na necessidade de provar algo para os outros. Quem realmente compreende o Candomblé sabe que cada coisa tem seu tempo e que o aprendizado mais profundo vem da experiência, não da necessidade de ser reconhecido como detentor de conhecimento. O filho de santo que tem humildade cresce naturalmente, pois os Orixás enxergam aqueles que sabem ouvir, aprender e agir com equilíbrio.
Por fim, o caminho dentro do axé não é construído apenas com palavras, mas com atitudes e com a sabedoria de quem sabe esperar o tempo certo para cada coisa. Aquele que busca aprender sem atropelar etapas, que respeita os mais velhos e que mantém sua caminhada com seriedade e humildade será naturalmente conduzido ao verdadeiro saber. No Candomblé, a verdadeira grandeza não está em quem fala mais alto, mas em quem constrói sua trajetória com paciência, respeito e devoção ao sagrado.
Princípios no Candomblé, de Forma Objetiva
O Farol Ancestral tem como proposta ser a luz para guiar aqueles que estão perdidos em sua jornada. E de tal forma, eu não podia deixar de escrever essa postagem para que juntos possamos fazer uma reflexão sobre o que cada um de nós está sendo para o Candomblé.
Sendo assim, depois deste estudo aprofundado que fizemos, precisamos entender esses conceitos da maneira mais simples, direta e sem enrolação, conforme as bases do Farol Ancestral. Então, antes de falarmos sobre esses princípios que fazem do Candomblé uma religião mais saudável para o nosso ser, precisamos estar conscientes de que o Candomblé não tolera desrespeito, vaidade excessiva ou arrogância. As pessoas que se dizem do Candomblé e propagam isso, estão cegas. Se são sacerdotes, são cegos guiando outros cegos.
O conhecimento vem pelo merecimento, e a postura do iniciado define o que ele está pronto para aprender. O seu caráter, o seu valor, os seus princípios e a sua constância é que fazem com que Orixá coloque professores e mestres no seu caminho. Intenções ocultas não ficam ocultas por muito tempo.
O caminho do Candomblé exige paciência, dedicação e um comportamento irrepreensível. Sempre há uma escolha a se fazer. Uma vida de aparências só engana pessoas, não engana Orixá. Cada um é responsável pelos resultados das suas próprias escolhas.
Muito sofrimento é evitado quando o ser humano entende que deve viver uma vida na qual, quando estiver diante de Deus, tenha mais motivos para sentir orgulho do que vergonha!
25 Princípios que te levam a uma Jornada Espiritual mais saudável
- Nunca cumprimente um mais velho sem demonstrar respeito.
→ A saudação no Candomblé sempre deve partir do mais novo para o mais velho. Não importa a opinião que você tem sobre a pessoa, se você é mais novo, sua obrigação é cumprimentar. É pedir a benção a quem de direito, e tomar todos os sinais de respeito a quem de direito. - Ao entrar em um quarto de santo, tenha postura e respeito.
→ O espaço sagrado do Candomblé exige reverência. Ao entrar, o comportamento deve ser adequado, sem brincadeiras ou distrações, pois você está diante da energia consciente do Orixá em sua representação física e materializada. - Quando lhe for confiado um segredo, guarde-o.
→ O Candomblé é uma religião de transmissão oral, onde os mais velhos confiam aos mais novos conhecimentos que não devem ser divulgados a quem não tem direito a eles. - Mantenha seus ancestrais e Orixás no padrão mais alto.
→ A tradição deve ser respeitada sem deturpações. O Candomblé é preservação da memória e dos ensinamentos dos mais velhos e dos Orixás. - Aja com seriedade nos rituais ou não aja de jeito nenhum.
→ O Candomblé não aceita displicência. Quem se propõe a fazer parte da religião deve se comprometer de corpo e alma. - Tire suas próprias conclusões, mas sempre ouça e respeite os mais velhos.
→ O aprendizado no Candomblé se dá por vivência, observação e respeito à tradição, mas cada um precisa desenvolver sua própria maturidade dentro da religião. - Ensine pelo exemplo, não apenas pela explicação.
→ No Candomblé, aprende-se observando e vivendo a rotina do axé. Os mais velhos ensinam pelo exemplo, e os mais novos absorvem pela prática. - Você não se inicia sozinho. Sua iniciação é uma família espiritual.
→ A iniciação no Candomblé não transforma alguém em um indivíduo isolado, mas em parte de uma comunidade, de uma família espiritual. - Seja como o Orixá manifestado em transe: calmo por fora, forte por dentro.
→ No Candomblé, o equilíbrio emocional é fundamental. Aquele que se desequilibra constantemente não tem condições de lidar com os mistérios da religião. - A vivência do Candomblé exige momentos de solitude e reflexão.
→ Momentos de introspecção são fundamentais para entender seu caminho dentro da religião e fortalecer sua relação com Orixá. - Respeite as mulheres. Elas são a base da tradição e do axé.
→ No Candomblé, as mulheres têm um papel fundamental. Antes de perder tempo com pensamentos incoerentes como “um iyawo faz mil Ogans, mas mil Ogans não fazem um iyaô”, procure entender que tanto o Ogan, como a Ekeji, o Iyawô, o Egbon e até o Pai e a Mãe de Santo foram carregados no ventre de uma mulher. Se você não as respeita, o resto não importa! - Entenda a diferença entre o bom e o mau caráter e sempre esteja ao lado do bom caráter.
→ No Candomblé, o Ìwà Pẹ̀lẹ́ (bom caráter) é fundamental. Nenhum poder espiritual pode estar acima da conduta correta. A única diferença entre o que é certo e o que é errado é apenas a escolha. - Antes de falar ou agir no calor do momento, pense se o Orixá aprovaria sua atitude.
→ A paciência e a reflexão são virtudes fundamentais no Candomblé. Nenhuma palavra dita no calor da emoção pode ser retirada depois. Toda história tem sempre 3 versões: a sua, a do outro e a verdade real. A régua do Orixá sempre vai medir pela verdade real! - Faça mais e fale menos.
→ No Candomblé, as maneiras e a conduta de um filho de santo demonstram seu axé e seu compromisso com a religião. - Dê crédito aos mais velhos. Assuma suas falhas.
→ O aprendizado vem da humildade de reconhecer quem nos ensina e de aceitar quando erramos para poder evoluir. Mas lembre-se que todo mundo erra, inclusive os mais velhos, porém não cabe a você julgá-los, condená-los e castigá-los. - Defenda sua religião, mas sem agressividade.
→ O Candomblé sempre foi alvo de perseguições, e os praticantes devem preservar e defender sua fé, mas sem adotar posturas combativas que desrespeitem o outro. Observe o exemplo dos antigos, que se impunham sempre de maneira inteligente. Se ainda assim fossem injustiçados pelo Homem, era espiritualmente que eles respondiam à injustiça. - Lição dada é lição aprendida.
→ A memória é essencial no Candomblé. Certifique-se de guardar cada ensinamento, mesmo que você não o entenda naquele momento. Em alguma etapa da sua vida aquela lição vai te fazer sentido. - Seja confiante, porém humilde.
→ No Candomblé, o orgulho desmedido dilui sua energia espiritual e afasta a aprendizado de você. A humildade e a confiança devem caminhar juntas. A arrogância só afasta as pessoas e cria inimizades. - Se alguma vez estiver em dúvida, lembre-se de que você é um elo da ancestralidade e deve honrar essa linhagem.
→ O praticante do Candomblé não representa apenas a si mesmo, mas carrega consigo a história de seu povo, de seus Orixás e de seus ancestrais. Ninguém está bem a todo tempo e nem mal a todo tempo, às vezes seu revés é só uma fase, um aprendizado por provação. Se você for firme e fiel aos seus princípios, Orixá vai honrar você. - Reze todas as manhãs, converse com seus Orixás e agradeça.
→ A conexão com os Orixás deve ser diária, e não apenas em momentos de necessidade. Orixá conhece o timbre da sua voz, seu hálito, seu cheiro. Reforce sempre esse compromisso. - Peça licença ao entrar e ao se retirar.
→ A saudação e o respeito ao espaço sagrado são fundamentais no Candomblé. Isso vale para todos os lugares. - Esteja atento aos sinais do Orixá e às mudanças ao seu redor.
→ No Candomblé, os sinais e os presságios fazem parte da comunicação espiritual. Estar atento é estar conectado ao axé. A magia que muita gente tanto busca de maneira impressionista é na verdade simples e está em todos os lugares, para quem tem percepção para encontrar. - Não tente se impor pelo grito ou pela raiva. O poder do axé vem do equilíbrio.
→ O domínio sobre as emoções é um dos maiores desafios para quem caminha na religião, mas uma vez alcançado, fará com que as pessoas respeitem o seu caráter. - Seja reservado. O conhecimento sagrado não é para todos.
→ Nem tudo que é aprendido deve ser compartilhado livremente. Os mistérios pertencem a quem está pronto para recebê-los. Você tem a missão de desmistificar ideias errôneas sobre o senso comum, mas há mistérios que precisam ser preservados e repassados apenas a pessoas iniciadas e da sua confiança. - Nunca dê alguém um presente que você recebeu.
→ Se você recebeu um presente, ele é seu. Ao dá-lo para outra pessoa, você está na verdade dando a sua sorte.

Respeitar os Princípios é Honrar o Axé
O Candomblé não se sustenta na desordem, na vaidade desmedida ou na arrogância, mas na disciplina, no respeito e na lealdade aos fundamentos. Os maiores desafios enfrentados dentro da religião não vêm de fora, mas de dentro, daqueles que tentam moldar o axé às suas vontades, esquecendo-se de que a tradição existe para ser preservada, e não reinventada ao sabor das conveniências individuais. Orixá não caminha com quem espalha conflitos, com quem usa a religião para alimentar o ego ou com quem se recusa a respeitar os mais velhos e a hierarquia sagrada.
O conhecimento no Candomblé não é dado a quem apenas deseja, mas a quem está pronto para recebê-lo. Cada lição transmitida, cada ensinamento repassado, cada fundamento revelado exige responsabilidade e comprometimento. Um filho de santo não é reconhecido pelo que sabe, mas pelo que pratica. Aqueles que caminham com retidão são naturalmente conduzidos ao saber mais profundo, pois Orixá enxerga além das palavras—ele vê a postura, a entrega e a verdade de cada um.
Se esses 25 princípios forem vividos com seriedade, com respeito e com dedicação genuína, o Candomblé continuará forte, íntegro e fiel às suas raízes. O axé não se enfraquece com o tempo, mas com a falta de compromisso daqueles que deveriam protegê-lo. Cabe a cada filho de santo honrar sua caminhada, preservar os ensinamentos recebidos e garantir que a tradição siga viva para as próximas gerações, sem ser distorcida ou banalizada.
A verdadeira caminhada dentro do Candomblé não é medida pelo tempo de iniciação, mas pela coerência entre palavra e ação, pelo zelo com a religião e pela humildade em aprender e evoluir continuamente. Quem respeita os princípios do axé constrói uma base sólida, fortalece sua relação com os Orixás e contribui para que a religião permaneça firme e respeitada.
Perguntas Frequentes
Ao longo do tempo, percebi que algumas dúvidas sobre o Candomblé surgem com frequência nas redes sociais. Para esclarecer essas questões de forma objetiva e fundamentada, reuni aqui as respostas para alguns dos questionamentos mais comuns, ajudando a ampliar o conhecimento sobre a religião e sua estrutura.
Quais são os princípios do Candomblé?
Os princípios do Candomblé se baseiam no respeito à ancestralidade, na hierarquia dentro da casa de santo, no compromisso com os rituais, na valorização da coletividade e no bom caráter (Ìwà Pẹ̀lẹ́). A religião ensina que a conexão com os Orixás exige responsabilidade, lealdade e dedicação ao axé.
O que são fundamentos no Candomblé?
Os fundamentos no Candomblé são os ensinamentos sagrados, transmitidos oralmente pelos mais velhos e protegidos dentro da tradição. Eles englobam os ritos, os preceitos, os assentamentos, as obrigações e tudo o que sustenta a estrutura espiritual da religião. Os fundamentos não são expostos a qualquer pessoa, pois fazem parte do conhecimento reservado a quem caminha dentro do axé.
Quais são os preceitos do Candomblé?
Os preceitos no Candomblé são as regras espirituais e comportamentais que cada iniciado deve seguir. Eles variam de acordo com a casa, o Orixá e a tradição seguida, mas geralmente incluem resguardos (períodos de recolhimento e restrições), cuidados alimentares, orações e respeito às hierarquias. Cada preceito tem um propósito dentro do axé e deve ser cumprido com seriedade.
Quais são as 7 entidades do Candomblé?
No Candomblé, não trabalhamos com o conceito de “entidades” como em algumas religiões de matriz afro-brasileira, como a Umbanda. No entanto, algumas tradições reconhecem sete forças espirituais essenciais que atuam no equilíbrio da natureza e da vida, sendo representadas por Orixás primordiais. Essas forças podem variar de acordo com a tradição seguida.
O que se prega no Candomblé?
O Candomblé não prega dogmas judaico-cristãos, porém possui ensinamentos sobre valores como respeito aos mais velhos, equilíbrio espiritual, compromisso com a coletividade e conexão com os Orixás e ancestrais. A religião valoriza a força da natureza, o respeito aos ciclos da vida e a importância de cada indivíduo dentro da comunidade. Cada linhagem relacionada às casas matrizes possui dogmas específicos, conforme as tradições familiares que formaram o Candomblé.
Quais são os 21 Orixás do Candomblé?
O número de Orixás cultuados pode variar conforme a nação do Candomblé ou o culto particular e familiar de cada matriz e suas casas descendentes, mas algumas listas incluem: Exu, Ogum, Oxóssi, Xangô, Obaluaiê, Oxumarê, Ossain, Iroko, Logunedé, Oxalá, Iemanjá, Oxum, Nanã, Obá, Iansã, Ewá, entre outros.
O que não é permitido no Candomblé?
O Candomblé não permite desrespeito à hierarquia, à tradição e aos mais velhos. Além disso, não se aceita vaidade excessiva, egoísmo dentro da comunidade ou a revelação de segredos e fundamentos para quem não tem direito a eles. Cada casa pode ter suas próprias restrições específicas, mas o mais importante é a conduta correta dentro da religião.
Qual a ética do Candomblé?
A ética no Candomblé se baseia no compromisso com o Orixá, no respeito à hierarquia, na lealdade à tradição e no bom caráter. Quem segue o caminho do axé deve agir com retidão, cumprir seus deveres espirituais e respeitar a comunidade religiosa. A palavra tem valor, a humildade é essencial e a verdade sempre será medida pelos Orixás.
Agora queremos saber: quais desses princípios você já coloca em prática na sua caminhada dentro do Candomblé? Você já enfrentou desafios para manter sua postura dentro da ética do axé? Compartilhe sua experiência nos comentários e fortaleça essa troca de saberes! Afinal, o aprendizado cresce quando é compartilhado, e a tradição se fortalece quando aqueles que a seguem o fazem com verdade e compromisso.