Besouro (2009): Candomblé, capoeira e a construção de um herói afro-brasileiro

Besouro (2009) é a demonstração de que o cinema nacional tem explorado figuras lendárias que marcaram a história popular do Brasil, e entre elas está Manoel Henrique Pereira, o Besouro Mangangá. O diretor João Daniel Tikhomiroff levou às telas a vida desse capoeirista baiano, transformando sua trajetória em uma narrativa épica que mistura ação, cultura e espiritualidade.

Mais do que apenas um filme de artes marciais, Besouro é uma obra que enaltece a ancestralidade afro-brasileira, destacando o papel do Candomblé como fonte de inspiração e força para um herói que luta contra a opressão.

Neste artigo, vamos analisar a história do filme, sua conexão com a capoeira, a presença do Candomblé e sua importância cultural para o cinema brasileiro.



Sinopse e contexto histórico

Ambientado na Bahia da década de 1920, Besouro acompanha a trajetória de Manoel Henrique Pereira, jovem negro que se transforma em lenda por suas habilidades extraordinárias na capoeira. Em um período marcado pela perseguição às manifestações culturais afro-brasileiras, sua luta simboliza a resistência contra a opressão social e racial.

O filme retrata Besouro como um herói que vai além da figura histórica: ele incorpora o mito, o guerreiro invencível, protegido pelos orixás. Essa escolha narrativa dialoga com o imaginário popular em torno de sua vida e morte, reforçando sua imagem como símbolo de liberdade e identidade cultural.

Lançado em 2009, a produção dialoga com a busca contemporânea por narrativas de heróis nacionais. Enquanto Hollywood populariza super-heróis baseados em mitologias estrangeiras, Besouro resgata uma figura brasileira, profundamente enraizada na cultura afro-descendente.

Capa do Filme Besouro

Personagem central: Besouro Mangangá

O protagonista de Besouro é inspirado em Manoel Henrique Pereira (1895–1924), conhecido como Besouro Mangangá, uma das figuras mais lendárias da capoeira baiana. Sua fama ultrapassou gerações, alimentada por relatos orais que o descrevem como lutador invencível, capaz de feitos sobrenaturais.

No filme, esse mito ganha corpo. Besouro é retratado como jovem de origem humilde que, ao perder o mestre e guia espiritual, assume o papel de herói da comunidade. Sua força não vem apenas da destreza física, mas também da ligação com o Candomblé: é protegido pelos orixás e conduzido por energias ancestrais.

A narrativa destaca seu caráter duplo:

  • Histórico – um capoeirista que enfrentou a repressão cultural e policial da época.
  • Mítico – um guerreiro espiritual, cujas habilidades beiram o sobrenatural, tornando-o símbolo de resistência.

Essa combinação de realidade e lenda faz de Besouro um arquétipo de herói afro-brasileiro, comparável a figuras de mitologias internacionais, mas enraizado em nossa própria ancestralidade.

Relação do filme com o Candomblé

Em Besouro, o Candomblé não aparece como pano de fundo, mas como força vital que molda a identidade do herói. Desde o início, o protagonista é retratado como alguém em sintonia com o mundo espiritual, encontrando nos orixás não apenas proteção, mas também poder para enfrentar seus inimigos.

As cenas rituais destacam cânticos, oferendas e símbolos sagrados que reforçam a dimensão religiosa do personagem. Elementos como o transe e a presença dos ancestrais são utilizados para mostrar que a força de Besouro não é apenas física, mas também espiritual.

A opção estética do filme — com efeitos especiais que ilustram a intervenção dos orixás em momentos decisivos — reforça a ideia de que o Candomblé é fonte de magia, energia e resistência. Essa representação não apenas legitima a fé afro-brasileira, mas também a coloca em pé de igualdade com mitologias que inspiraram heróis de outras culturas.

Assim, o filme constrói Besouro como herói nacional, cuja grandeza se explica pela conexão com o axé. A religião aparece como guia e arma, lembrando ao espectador que o Candomblé é parte essencial da história e da força do povo negro no Brasil.

Besouro (2009): Impacto cultural e recepção crítica

No lançamento em 2009, Besouro chamou atenção por unir ação coreografada, estética mística e valorização da cultura afro-brasileira. O filme foi exibido em festivais internacionais, como o de Londres e o de Toronto, o que ajudou a projetar a capoeira e o Candomblé para além das fronteiras nacionais.

A crítica destacou a qualidade das cenas de luta, coreografadas com base em movimentos reais de capoeira, e os efeitos especiais que reforçam a dimensão sobrenatural do herói. Esses elementos aproximaram a obra de uma linguagem de cinema épico, pouco comum no Brasil.

Por outro lado, algumas análises apontaram que a narrativa poderia ter explorado com mais profundidade os dilemas históricos e sociais enfrentados por Besouro. Mesmo assim, prevaleceu a percepção de que o filme cumpre um papel simbólico importante: apresentar um herói negro brasileiro, enraizado na cultura afro, em um formato que dialoga com o público jovem e internacional.

Com isso, Besouro se consolidou como obra de referência para debates sobre representatividade, ancestralidade e espiritualidade afro-brasileira no cinema. Ele não apenas resgatou a memória de um personagem histórico, mas também mostrou que o Brasil possui mitos e heróis capazes de dialogar com narrativas globais.

A importância de Besouro como herói afro-brasileiro

Besouro é um marco no cinema brasileiro por colocar no centro da narrativa um herói negro, moldado pela ancestralidade africana e pela espiritualidade do Candomblé. Diferente das histórias importadas de super-heróis estrangeiros, o filme apresenta ao público um personagem que nasce das lutas sociais, da resistência cultural e da fé que sustentou gerações de afrodescendentes no Brasil.

A obra reafirma a ideia de que a religiosidade afro-brasileira não deve ser vista como folclore ou exotismo, mas como parte estruturante da nossa identidade. Ao associar a força física da capoeira ao axé dos orixás, Besouro traduz em imagens o poder simbólico do Candomblé como guia, proteção e inspiração.

Para além do entretenimento, o filme convida a refletir sobre a necessidade de valorizar os heróis nacionais, reconhecendo que a verdadeira força do Brasil está em sua diversidade cultural e na resistência de seu povo.

Assim, Besouro permanece como referência para quem busca compreender como cinema, espiritualidade e memória podem se unir para construir narrativas capazes de dialogar com o mundo e, ao mesmo tempo, celebrar a riqueza da herança afro-brasileira.

FAQ – Perguntas Frequentes

Besouro é baseado em fatos reais?

Sim. O filme é inspirado na vida de Manoel Henrique Pereira (1895–1924), conhecido como Besouro Mangangá, capoeirista lendário da Bahia. Porém, a obra mistura elementos históricos com aspectos míticos, reforçando sua imagem como herói popular protegido pelos orixás.

Qual a relação entre Besouro e o Candomblé?

O Candomblé é retratado como a principal fonte de força espiritual do protagonista. Os orixás aparecem como protetores que guiam suas batalhas, e rituais afro-brasileiros dão profundidade à narrativa, destacando o valor da fé na formação de sua identidade.

Onde assistir Besouro?

O filme já foi exibido em festivais internacionais e em canais de televisão brasileiros. Atualmente, pode ser encontrado em serviços de streaming como Globoplay e Amazon Prime Video, além de catálogos especializados em cinema nacional.

Por que Besouro é considerado um herói afro-brasileiro?

Porque sua história combina luta contra a opressão, habilidades extraordinárias na capoeira e uma profunda ligação com o Candomblé. Ele representa a resistência cultural e espiritual de um povo, ocupando um espaço único no imaginário brasileiro.

Conclusão e CTA

Besouro é um filme que vai além do entretenimento: é um convite para conhecer um herói nacional moldado pela fé, pela ancestralidade e pela cultura afro-brasileira. Sua narrativa inspira orgulho e valoriza tradições que ainda hoje enfrentam preconceitos e desafios.

Este artigo faz parte da série “10 Filmes Sobre o Candomblé e a Umbanda”. Leia também essa lista completa e descubra outras análises.

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Leandro

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Elisa Herrmann, cineasta brasileira, tem uma sólida formação acadêmica em Arte Educação, Comunicação Audiovisual e Relações Internacionais, com mestrado em Comunicação de Massa e Artes Midiáticas e doutorado em Liderança do Ensino Superior. Bolsista Fulbright, ela produziu e dirigiu curtas premiados em festivais internacionais, incluindo o documentário “Rodrigo Herrmann – Vida e Obra”, exibido no Festival de Cannes. Seu primeiro longa, “Um Trabalho Bonito de Umbanda”, lançado no Museu de Belas Artes de Houston, acompanhou a exposição Histórias Afro-Atlânticas. Atualmente, leciona Cinema e Televisão na Sam Houston State University e coordena o Curso de Cinema. Prêmios: Undocumented: A Dream of Education (documentário de curta-metragem): Um Trabalho Bonito de Umbanda (documentário de longa-metragem): A Grande Aventura das Senhoritas Bentley (roteiro de longa-metragem): Rodrigo Herrmann – Vida e Obra (documentário de curta-metragem): A Envenenadora (curta-metragem experimental): Death Expectancy (roteiro de curta-metragem): The Gaze (O Olhar) (curta-metragem de ficção): 3 ½ Minutes (curta-metragem experimental): Exibições Artísticas: My Not-So-Righteous Life (roteiro de longa-metragem): Undocumented: A Dream of Education (documentário de curta-metragem): A Neve de Curitiba (documentário de curta-metragem): Um Trabalho Bonito de Umbanda (documentário de longa-metragem): A Culpa é do Smiley (documentário de curta-metragem): The Great Adventure of the Bentley Girls (roteiro de longa-metragem): Rodrigo Herrmann – Vida e Obra (documentário de curta-metragem): Death Expectancy (roteiro de curta-metragem): In The Eyes of Others (curta-metragem de ficção): a morte do poeta (curta-metragem experimental): A Redenção da Bicicleta (curta-metragem de ficção): Informações pesquisadas no site da Filmmaker, Cineasta, Elisa Herrmann. 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