Sensacionalismo Religioso: Uma visão sobre a TikTokização da Fé

A matéria publicada no UOL em 2 de maio de 2025, com o título “TikTok e fé: religiosos criticam banalização de rituais de matriz africana”, levanta uma questão pertinente e relacionada ao Sensacionalismo Religioso: o uso inadequado das redes sociais por praticantes e simpatizantes das religiões afro-brasileiras.

No entanto, o artigo erra ao tentar acertar. Ao abordar um problema real com viés sensacionalista, sem critério equilibrado de representação e sem compromisso com a coerência interna, o texto contribui para a mesma desinformação e confusão que afirma combater.



Incoerência e Representatividade

O primeiro problema do artigo está na seleção de vozes para representar a crítica. Seria mais coerente apresentar um panorama geral das referências convocadas para contribuir com a matéria, para, de tal forma, evitar que os leitores, ao pesquisarem as redes sociais dos participantes, não encontrem os mesmos conteúdos denunciados. Antes de apontar dedos, é necessário observar se há incoerências que enfraquecem a denúncia e expõem a matéria a um viés de hipocrisia jornalística.

Não estou imputando erros aos participantes, mas acredito que, quando há uma preocupação maior com a transparência de se mostrar o trabalho pregresso do colaborador, a validação da argumentação se torna mais sólida. Com um assunto de extrema importância, é necessário ser criterioso ao máximo. A validação de fontes por meio de seus títulos é importante, mas é necessário muito mais para que se aborde o assunto de uma maneira sólida.

Apenas Sensacionalismo, Racismo Reverso ou Racismo Velado?

No afã de defender o sagrado, o artigo incorre no julgamento seletivo: condena a exposição de alguns enquanto silencia ou exalta a de outros, como se o problema estivesse na origem racial da pessoa — e não na intenção ou no conteúdo do que se expõe.

Essa abordagem racializada, além de perigosa, é reducionista. Pierre Verger, criticado no texto, é reconhecido por muitos sacerdotes negros tradicionais, que viram em sua obra um registro respeitoso e valioso de saberes preservados oralmente.

Apagar esse legado é também apagar o aval dado por quem, de dentro, lhe abriu as portas. É transformar ressentimento em pauta militante, e antagonismo em método. Não existe Racismo Reverso, existe Racismo, que é uma via de duas mãos!

O Problema Real Não Tem Cor

Os erros que ocorrem nas redes são reais: exposição indevida de ritos fechados, vulgarização do sagrado, promessas mercantilizadas, uso da religião como trampolim para fama e lucro.

Mas esses erros não têm cor. São cometidos por pessoas de todas as origens — incluindo iniciados e não iniciados, negros e brancos, praticantes e oportunistas. Reduzir a crítica à questão racial ignora a raiz do problema e cria um falso antagonismo que em nada contribui para o amadurecimento do debate.

O que o Candomblé Ensina

O Candomblé é uma religião ancestral, plural, inclusiva e profundamente ética. Sempre soube integrar, de forma cuidadosa, pessoas de diferentes origens. O que importa é a conduta, o compromisso com o axé — e não a cor da pele.

Invalidar a participação de alguém apenas por ser branco é rasgar o princípio fundamental da iniciação: a transformação do ser pela espiritualidade, e não pela identidade étnica.

Informação é Poder, e Responsabilidade

Um jornalismo que se propõe a falar sobre religiões de matriz africana deve, antes de tudo, demonstrar respeito pelas suas complexidades. Isso significa ouvir vozes diversas, comparar práticas e discursos, apresentar os problemas com clareza — mas também com responsabilidade.

Não se combate a exposição banal com uma exposição sensacionalista. Não se educa com clichês ideológicos. Não se honra o sagrado com ruído.

O Perigo de Uma Distração na Linha Editorial

Há um outro ponto preocupante do artigo que é o uso da imagem da respeitada Casa Fanti Ashanti, sem que se deixe claro se a casa foi consultada ou se sua imagem está apenas sendo usada como ilustração simbólica. A ambiguidade visual, somada à ausência de menção direta a qualquer representante da casa, expõe a instituição a uma possível associação indevida com a crítica feita no texto.

Essa ambiguidade semântica está logo no primeiro parágrafo imediatamente à esquerda da imagem, que trata de uma situação constrangedora ao perguntar se é “estranho” assistir a uma live com uma pessoa incorporada. A pergunta sugere que há algo de incômodo ou até “fora do lugar” nessa prática.

E então vemos a imagem de uma mulher ajoelhada em traje ritual tradicional do Candomblé, com a legenda: “Imagem: Reprodução / Instagram casa.fanti.ashanti”. A associação implícita pode induzir o leitor desavisado a pensar que essa imagem ilustra a situação “incômoda” descrita no texto, o que seria altamente injusto e desrespeitoso à Casa Fanti Ashanti. Em nenhum momento do texto a Casa Fanti Ashanti é citada como fonte ou voz consultada.

Isso agrava o problema, pois a imagem da casa é utilizada sem deixar claro se ela concorda ou discorda do teor da matéria — o que pode comprometer sua reputação, sugerindo envolvimento ou anuência com algo que talvez a própria casa não endosse.

Em um tema tão sensível, é inaceitável que se utilizem imagens de casas tradicionais sem que haja um posicionamento claro e legítimo de seus representantes. Além disso, causa estranheza que nenhuma casa matriz — entre aquelas responsáveis por salvaguardar as tradições do Candomblé — tenha sido ouvida ou citada como referência.

A matéria não menciona nenhuma roça tradicional com autoridade histórica ou iniciática que represente o Candomblé mais antigo e estruturado. Faltam representantes de casas como Ilê Axé Iyá Nassô Oká, Gantóis, Bate-Folha, Muritiba, Ventura, Bogun, Casa de Oxumarê, dentre outras que guardam os pilares do culto do Candomblé. Isso revela uma falta de profundidade na curadoria jornalística. O artigo fala sobre “banalização”, mas ignora justamente quem zela pela manutenção do sagrado com legitimidade.

O resultado é uma crítica desancorada, superficial, e que desconsidera as estruturas reais que zelam pelo culto. Se é para falar de respeito ao sagrado, que se comece respeitando quem o representa com autoridade.

Candomblé: O Que Realmente Fortalece o Sagrado

A melhor forma de combater a banalização é oferecer conteúdo de qualidade. É formar, informar, esclarecer. Mostrar que sim, há segredos — mas também há conhecimento acessível. Que sim, há limites — mas também há pontes. Que é possível falar de espiritualidade sem vendê-la como produto ou transformá-la em performance.

Para um tema que envolve a exposição pública de rituais religiosos, identidade, ancestralidade, questões raciais e responsabilidade digital, um artigo jornalístico com poucas palavras pode até atender a um padrão jornalístico médio para vender na internet, mas não é suficiente para abordar com profundidade crítica e equilíbrio todos os aspectos sensíveis que o tema exige.

O que se espera de quem tem responsabilidade com o Candomblé não é o silêncio, mas a sabedoria. E sabedoria não grita, não acusa, não generaliza. Ela orienta, acolhe e ilumina.

Apenas para reflexão

Essa crítica não tem a intenção de invalidar ou de colocar os depoimentos das pessoas consultadas para a redação da matéria em segundo plano, mas

Como será, então, para os leitores que acolheram tal denúncia, ao abrirem as redes sociais das vozes críticas e se depararem com conteúdos que promovem o mesmo mercantilismo — ou até algo mais grave — do que aquilo que se acusa?

O Candomblé não precisa ser defendido com mais brigas. Precisa ser vivido com mais verdade.

A história não tem que ser bonita. Tem que ser verdadeira.


A postura de qualquer adepto ou praticante de qualquer religião precisa ser reta. Todos nós somos seres humanos e passíveis de cometer erros, mas ainda assim é necessário ter discernimento para enxergar problemas e propor soluções. É necessário, principalmente a quem vive uma vida sacerdotal, se pautar principalmente na ética, nos nossos valores ancestrais e propagar os princípios daqueles que viveram e sofreram para que o Candomblé fosse legado a nós.

Não condeno a ideia do artigo, mas acredito que um assunto de tal complexidade precisa ser melhor abordado. Um assunto de tal magnitude precisa criar reflexão, construir pontes e não levantar muros.

Por isso, inclusive, recomendo a leitura do artigo, “A Ética no Candomblé: Compromisso e Responsabilidade”, justamente para que possamos ter uma ideia mais aprofundada de tudo que representa abordar este assunto.

Por fim, expresso meu total respeito à memória de Pierre Fatumbi Verger, que inclusive é cultuado e invocado para trazer sabedoria aos iniciados da nossa religião dentro do Culto de Egungun no Brasil.

E você, o que acha? Deixe sua opinião aqui para que possamos refletir juntos.

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