Oriri: A Planta Sagrada que Conecta Saúde e Espiritualidade Yorùbá

Ewé Rínrín, conhecida cientificamente como Peperomia pellucida, é uma planta de grande importância nas tradições espirituais e medicinais do povo Yorùbá. Essa erva, que atravessou o Atlântico durante o período colonial, mantém até hoje seu lugar central nos rituais de Candomblé e nas práticas de cura tradicional.

No Brasil, a planta recebe diversos nomes populares como Oriri, alfavaquinha-de-cobra ou erva-de-jabuti, demonstrando sua ampla disseminação e adaptação cultural. Seu uso vai desde banhos ritualísticos até aplicações medicinais para diversos males, comprovadas tanto pelo conhecimento ancestral quanto por pesquisas científicas recentes.

Conhecer a Ewé Rínrín é mergulhar em um pedaço vivo da cultura Yorùbá que sobreviveu à diáspora. Continue lendo para descobrir os detalhes fascinantes sobre essa planta sagrada e seus múltiplos usos. No final do artigo, ainda vou te ensinar como fazer o melhor substrato que existe para você plantar suas mudas de Axé.



Identidade Botânica e Cultural

Ewé Rínrín apresenta uma rica variedade de denominações que revelam sua jornada histórica e cultural. Na língua Yorùbá, seu nome original significa literalmente “folha molhada/lustrosa”, uma referência direta às suas características físicas marcantes. Essa nomenclatura já indica sua forte associação com o elemento água e com Orixás como Oxum.

No contexto afro-brasileiro, a planta ganhou novos nomes e significados. Oriri tornou-se o termo mais utilizado nos terreiros de Candomblé, especialmente nas nações Ketu e Jeje. Já nas comunidades populares, é conhecida como alfavaquinha-de-cobra ou erva-de-jabuti, nomes que fazem referência ao seu formato e ao aroma peculiar que exala quando macerada.

Em Cuba, onde a tradição Yorùbá também se estabeleceu com força, a planta recebeu o nome poético de “Corazón de paloma” (coração de pomba), demonstrando como cada comunidade reinterpretou suas qualidades essenciais. Essa diversidade de nomes mostra a capacidade de adaptação da planta e do conhecimento tradicional que a acompanha.

Dados Etnobotânicos Comparativos:

RegiãoNome LocalUso Principal
Nigéria/BeninÈwé RínrínCuidados com Orí
BrasilOririOmi ẹ̀rọ̀
CubaCorazón de palomaBanhos rituais

A tabela acima demonstra como os usos principais da planta mantiveram uma linha de continuidade através das diferentes culturas, sempre com foco em aplicações ritualísticas e de purificação. Essa constância revela a importância espiritual que a Ewé Rínrín carrega consigo.

Vale destacar que, independentemente do nome utilizado, a planta sempre esteve associada a rituais de limpeza e proteção espiritual. Seja nos cuidados com Orí na África, nas preparações de Omi ẹ̀rọ̀ (banhos de folhas) no Brasil ou nos banhos ritualísticos em Cuba, a Ewé Rínrín mantém sua essência como veículo de conexão com o sagrado.

Características Físicas da Ewé Rínrín

Ewé Rínrín (Peperomia pellucida) possui características botânicas bem definidas que facilitam sua identificação. Esta planta herbácea anual cresce preferencialmente em locais úmidos e sombreados, sendo comum encontrá-la em jardins, terrenos baldios e margens de riachos. Seu habitat natural revela muito sobre suas necessidades e propriedades, já que desenvolveu adaptações específicas para esses ambientes.

As folhas suculentas e translúcidas são a característica mais marcante da Ewé Rínrín. Com formato cordiforme (em forma de coração) e medindo entre 2-4 cm de comprimento, apresentam uma textura carnosa e superfície brilhante. Quando observadas contra a luz, revelam uma interessante transparência que permite ver suas veias internas, característica que explica seu nome popular de “erva-de-vidro” em algumas regiões.

Os caules quebradiços contêm alto teor de água (cerca de 90% de sua composição), tornando-os extremamente frágeis ao toque. Essa fragilidade, no entanto, é compensada por sua rápida capacidade de regeneração. As flores diminutas organizam-se em inflorescências do tipo espiga, com cerca de 2-6 cm de comprimento, de cor esverdeada e pouco vistosas a olho nu.

Uma curiosidade marcante sobre a Ewé Rínrín é o aroma característico que exala quando macerada. Seu cheiro pungente lembra o da mostarda, devido à presença de compostos sulfurados em sua composição química. Esse odor serve como importante identificador da planta, especialmente quando utilizada em preparações rituais onde a identificação visual pode ser mais difícil.

Do ponto de vista botânico, a Ewé Rínrín classifica-se como:

  • Família: Piperaceae
  • Porte: Herbácea anual
  • Altura: 15-30 cm quando adulta
  • Ciclo de vida: Completa em 3-4 meses
  • Propagação: Principalmente por sementes

Essas características físicas não são apenas detalhes botânicos, mas estão diretamente relacionadas aos seus usos tradicionais. A alta concentração de água em seus tecidos, por exemplo, explica sua eficácia em preparações de banhos refrescantes, enquanto sua fragilidade exigiu o desenvolvimento de técnicas especiais de colheita e manuseio nos rituais do Candomblé.

Usos Ritualísticos e Espirituais o Oriri

Ewé Rínrín possui ligações profundas com três importantes divindades do panteão Yorùbá. Com Ọ̀ṣun (Oxum), a relação se estabelece através das propriedades refrescantes e curativas da planta, que ecoam os domínios desse Orixá sobre as águas doces e a medicina tradicional. Nos terreiros, é comum ver o Oriri nos assentamentos de Oxum, especialmente em rituais de cura e fertilidade.

A conexão com Ọbàtálá (Oxalá) se manifesta através das qualidades purificadoras da planta e da cor clara de seus caules. Como divindade da criação e da pureza, Ọbàtálá encontra na Ewé Rínrín um veículo ideal para trabalhos de limpeza espiritual. Muitos babalorixás utilizam a planta em cerimônias de iniciação justamente por essa capacidade de purificação energética.

No que diz respeito a Orí (a cabeça espiritual), a Ewé Rínrín é componente essencial nos rituais de lavagem e preparação. A sabedoria tradicional explica que a planta ajuda a equilibrar e fortalecer a conexão entre o indivíduo e seu Orí, funcionando como uma ponte entre o físico e o espiritual. Essa aplicação é especialmente importante nos processos de iniciação no Candomblé.

A escolha da Ewé Rínrín para esses fins não é aleatória. Suas propriedades físicas – como a alta concentração de água em seus tecidos – são vistas como espelho de suas capacidades espirituais. Assim como consegue reter líquidos, a planta também seria capaz de absorver e transformar energias durante os rituais.

Essas associações são confirmadas pelos versos do Odù Ifá que mencionam a planta, além dos testemunhos de sacerdotes experientes. A Ewé Rínrín não é apenas mais uma erva no arsenal ritualístico, mas uma planta com funções específicas e bem definidas dentro da complexa teologia Yorùbá.

Aplicações Ritualísticas

Ewé Rínrín desempenha funções específicas e insubstituíveis em três principais preparações rituais do Candomblé. O àgbo, banho litúrgico composto por várias ervas sagradas, pode incluir a Ewé Rínrín em sua fórmula tradicional. Esse banho é aplicado em ritos de iniciação e limpeza espiritual, seguindo o padrão de escorrimento da cabeça para os pés, com cantigas específicas que ativam suas propriedades.

Na preparação do omi ẹ̀rọ̀ (água fresca). É utilizado para diversas finalidades, como banhos, lavar os olhos de quem for preparado para jogar búzios, seguindo inclusive o ensinamento do Odù Ifá que destaca a necessidade de “clarificar a visão” antes de acessar conhecimentos sagrados. O processo exige que as folhas sejam maceradas em água pura, sem contato com metais.

ọṣẹ dúdú (sabão da costa) ganha potência ritual quando incorpora folhas, como a Ewé Rínrín, em sua composição. As folhas são cuidadosamente selecionadas, lavadas com água corrente e depois maceradas junto com outras ervas como o òdúndún. O sabão resultante pode ser usado em rituais de purificação profunda, especialmente nos períodos que antecedem as festas de Orixá.

O Ọfọ̀ relacionado ao Odù Òsá Méjì reforça a importância ritualística da planta com o verso: “Rínrín Òrìṣà kìí mú ilẹ̀ tì” (“A folha Rínrín do Òrìṣà nunca deixa a terra em dificuldade”). Esse trecho é frequentemente recitado durante a colheita da erva pelos Yorùbá, estabelecendo uma conexão entre seu uso físico e seu significado espiritual. A citação aparece em contextos de abundância e estabilidade, mostrando como a planta transcende sua função botânica.

Cada aplicação ritual da Ewé Rínrín segue protocolos precisos que variam conforme a nação de Candomblé e o Orixá a ser homenageado. Em algumas tradições, por exemplo, a planta é colhida preferencialmente nas primeiras horas da manhã, enquanto em outras o processo pode ocorrer ao entardecer. Esses detalhes demonstram o cuidado e respeito que cercam o uso dessa erva sagrada.

Ewé Rínrín possui uma longa história de uso na medicina tradicional Yorùbá e afro-brasileira. Para problemas oculares como conjuntivite e irritações, o sumo extraído do caule é aplicado diretamente nos olhos, seguindo um protocolo específico que inclui filtragem cuidadosa e preparação em recipiente de vidro. Essa prática, mencionada em registros etnobotânicos desde o século XIX, continua sendo utilizada em comunidades rurais.

No tratamento de dores reumáticas e articulares, as folhas frescas são maceradas e aplicadas como cataplasma sobre as áreas afetadas. A preparação tradicional inclui aquecer levemente as folhas antes da aplicação, potencializando seu efeito anti-inflamatório. Muitos terreiros de Candomblé mantêm essa prática, combinando o conhecimento medicinal com elementos ritualísticos.

Para distúrbios digestivos, o chá preparado com as folhas secas de Ewé Rínrín é amplamente utilizado. A receita tradicional recomenda uma infusão breve (5-7 minutos) de 3-5 folhas em água quente, consumida em pequenas doses ao longo do dia. Esse preparo é especialmente indicado para cólicas intestinais, indigestão e perda de apetite, conforme documentado em pesquisas sobre medicina popular no Nordeste brasileiro.

A planta também apresenta aplicações menos conhecidas, mas igualmente importantes. O suco das folhas frescas é utilizado como cicatrizante natural para pequenos cortes e feridas, enquanto a infusão mais concentrada serve como compressa para dores de cabeça. Esses usos demonstram a versatilidade terapêutica da Ewé Rínrín na farmacopeia tradicional.

Um aspecto crucial no uso medicinal tradicional é o respeito aos ciclos da planta. Os conhecedores mais antigos recomendam colher as folhas no período da manhã, quando o orvalho já secou mas o sol ainda não está forte. Essa atenção aos detalhes reflete um conhecimento profundo sobre as variações sazonais nas propriedades medicinais da erva.

Comprovação Científica das Propriedades da Ewé Rínrín

Pesquisas acadêmicas têm validado muitos dos usos tradicionais da Ewé Rínrín, revelando os mecanismos por trás de suas propriedades medicinais. Um estudo publicado no Journal of Ethnopharmacology (2018) identificou potentes compostos anti-inflamatórios na planta, incluindo flavonoides e taninos que inibem a produção de prostaglandinas, substâncias envolvidas em processos inflamatórios. Essa descoberta explica cientificamente sua eficácia no tratamento de dores articulares e reumáticas.

efeito diurético da Ewé Rínrín, documentado no Brazilian Journal of Pharmacognosy, deve-se à presença de potássio e outros minerais que estimulam a função renal. A pesquisa mostrou um aumento de 30-40% na produção urinária em testes controlados, confirmando seu uso tradicional para problemas de retenção de líquidos e como auxiliar no tratamento de cálculos renais. Esse efeito é dose-dependente e mais pronunciado nas primeiras horas após o consumo.

Estudos do Phytotherapy Research revelaram o potencial analgésico dos extratos da planta, comparável em alguns casos a medicamentos convencionais. Os testes em animais demonstraram redução significativa na percepção de dor, especialmente em modelos de dor inflamatória. Os pesquisadores atribuem esse efeito à ação combinada de alcaloides e saponinas presentes nas folhas e caules.

Apesar dessas comprovações, é crucial consultar um profissional de saúde antes de usar a Ewé Rínrín para fins medicinais. A planta pode interagir com medicamentos para hipertensão e diuréticos, além de ser contraindicada em casos de gravidez e para pessoas com hipersensibilidade a seus componentes. A automedicação, mesmo com plantas tradicionais, sempre apresenta riscos que devem ser considerados.

A ciência moderna continua investigando outras propriedades atribuídas à Ewé Rínrín, como seus possíveis efeitos antimicrobianos e antioxidantes. Pesquisas preliminares sugerem atividade contra certas bactérias e fungos, abrindo caminho para futuras aplicações terapêuticas. Esses estudos representam um diálogo valioso entre o conhecimento tradicional e a medicina contemporânea.

Adaptações do seu uso no Candomblé

Ewé Rínrín manteve seu status sagrado durante a diáspora africana, adaptando-se às novas realidades sem perder suas funções essenciais. Nos rituais de iniciação do Candomblé, conhecidos como “feitura de santo”, a planta continua sendo componente dos banhos purificadores. Sua presença é especialmente recomendável no momento oportuno que antecede a “raspagem”, quando os iniciados podem receber banhos de ervas específicos com preparados que contenham Ewé Rínrín para fortalecer a conexão espiritual.

As obrigações periódicas – rituais periódicos de renovação de energia – também preservam o uso da Ewé Rínrín em suas diversas etapas. Ela pode estar presente no “amaci”, onde a planta é combinada com outras ervas sagradas para criar banhos especiais. Cada casa de Candomblé desenvolveu pequenas variações na forma de preparo, mas o significado ritualístico permanece consistente em todas as nações (Ketu, Jeje e Angola).

Como parte do grupo Ewé Orò (folhas essenciais), o Oriri conquistou lugar permanente nos rituais mais importantes. Sua classificação entre as plantas fundamentais reflete não apenas suas propriedades físicas, mas também seu valor simbólico como ponte entre as tradições africanas e afro-brasileiras. Muitos terreiros mantêm canteiros específicos para seu cultivo, garantindo que esteja sempre disponível para os rituais.

A adaptação mais notável no contexto brasileiro foi a incorporação da Ewé Rínrín em rituais de cura que combinam conhecimentos africanos e indígenas. Em algumas comunidades, a planta passou a ser utilizada em defumações, aplicação que não era comuns em seu uso original na África. Essa evolução demonstra a capacidade da tradição de absorver novos significados sem perder sua essência.

A preservação do uso ritual do Oriri no Candomblé representa mais do que continuidade botânica – é a manutenção viva de um conhecimento ancestral. Cada folha utilizada nos terreiros carrega consigo séculos de sabedoria Yorùbá, reinterpretada e revitalizada no contexto afro-brasileiro. Essa trajetória faz da planta um símbolo da resistência cultural e da adaptabilidade das tradições africanas.

Uso como PANC na Culinária Afro-Brasileira

O Oriri conquistou espaço não apenas nos rituais sagrados, mas também na culinária brasileira de alguns locais como uma Planta Alimentícia Não Convencional (PANC). Suas folhas jovens, de sabor levemente picante e aroma característico, são utilizadas cruas em saladas, combinadas com tomates, cebolas e um fio de azeite. Esse preparo simples preserva seus nutrientes e oferece um toque exótico aos pratos, mantendo viva uma tradição alimentar que remonta às comunidades Yorùbá.

Nos refogados, a planta revela outra faceta. As folhas mais maduras são cortadas finamente e salteadas com alho, cebola e pimentão, servidas como acompanhamento para carnes, peixes ou pratos à base de inhame. Em algumas comunidades tradicionais, esse preparo é enriquecido com camarão seco ou castanha de caju, ingredientes que realçam seu sabor e conectam o prato à herança africana. A técnica de cozimento breve preserva sua textura crocante e propriedades nutricionais.

Os chás aromáticos feitos com Ewé Rínrín são consumidos tanto por suas propriedades medicinais quanto pelo sabor refrescante. A infusão das folhas secas em água quente por 5 a 7 minutos libera compostos voláteis que lembram o aroma da mostarda, com um toque herbal. Esse chá é tradicionalmente adoçado com mel e consumido após as refeições para auxiliar na digestão.

Além desses usos, a planta aparece em preparações menos convencionais, como panquecas verdes (onde as folhas são incorporadas à massa) e sucos desintoxicantes (misturados com frutas cítricas). Sua versatilidade na cozinha é um testemunho da criatividade das comunidades afro-brasileiras em adaptar ingredientes sagrados ao cotidiano, sem perder seu significado cultural.

Vale destacar que, mesmo no uso culinário, a Ewé Rínrín carrega resquícios de seu valor ritualístico. Nos terreiros se mantêm pequenos rituais antes da colheita, não importa para qual finalidade seja, como agradecer e pedir licença aos Òrìṣà. Essa prática reforça o respeito aos ciclos naturais e a visão holística que integra alimentação, saúde e espiritualidade.

Sabedoria Viva na Ewé Rínrín

O Oriri é muito mais que uma simples planta – é um elo vivo entre o conhecimento ancestral Africano e as práticas contemporâneas do Candomblé. Sua presença nos rituais sagrados, na medicina tradicional e até na culinária demonstra como um mesmo elemento pode transcender categorias, servindo tanto ao espiritual quanto ao cotidiano. Essa versatilidade não é acidental; reflete a visão integrada das culturas africanas, que nunca separaram o sagrado do prático.

Os usos medicinais da Ewé Rínrín, validados tanto pela tradição quanto pela ciência, mostram como o conhecimento dos antigos continha profundos insights sobre a natureza. Seja no tratamento de inflamações, dores ou distúrbios digestivos, a planta comprova que a sabedoria popular muitas vezes antecipa descobertas científicas. No terreiro, ela segue sendo essencial para banhos de purificaçãocuidados com Orí e preparos como o ọṣẹ dúdú, mantendo viva uma farmacopeia ritualística de séculos.

Como PANC (Planta Alimentícia Não Convencional), a Ewé Rínrín também nos lembra da importância da biodiversidade e da sustentabilidade. Sua incorporação na culinária – seja em saladas, refogados ou chás – é um convite a resgatar ingredientes negligenciados pela agricultura industrial, mas ricos em cultura e nutrientes. Essa abordagem ecoa o provérbio yorùbá: “Kò sí ewé, kò sí Òrìṣa” (“Sem folhas, não há Orixás”), que nos alerta para a interdependência entre natureza e espiritualidade.

Preservar o conhecimento sobre a Ewé Rínrín é, portanto, uma forma de resistência cultural. Em um mundo onde plantas sagradas são frequentemente reduzidas a curiosidades folclóricas ou exploradas sem contexto, entender seu papel integral no Candomblé e na medicina tradicional é essencial. Cada uso ritual ou culinário carrega histórias de sobrevivência, adaptação e reverência aos ciclos naturais – valores urgentes em nossa relação com o meio ambiente.

Ọfọ̀ Yorùbá

Rínrín Òrìṣà kìí mú ilẹ̀ tì – A folha Rínrín do Òrìṣà nunca deixa a terra em dificuldade.
Kí a má mùú àmúbọ́ owó – Que nunca nos falte prosperidade material.
Kí a má mùú àmúbọ́ Ogbó – Que nunca nos falte longevidade.
Kí a má mùú àmúbọ́ ató – Que nunca nos falte saúde.
Kí a má mùú àmúbọ́ aya – Que nunca nos falte amor e companheirismo.
Kí a má mùú àmúbọ́ ire gbogbo – Que nunca nos falte nenhum tipo de bênção.

Sassain do Candomblé

Rínrín àtòrì ó
Ó rínrín àtòrì
Bá iyin ṣe Ìrúnmalẹ̀
Bá ìṣà bá b’árí bá’rọ̀
Bá ìṣà bá Bàbá k’Òrun
Atá kò rọ ojú àlà f’óri kàn
Ó rínrín àtòrì, Bàbá pèṣùn

São leves os passos de àtòrì
Leves são os passos de àtòrì
Como se fazem louvores aos Irúnmalẹ̀ (divindades ancestrais)
Como os ancestrais se cumprimentam, se encontram, se aconselham
Como os ancestrais saudam o Pai Celestial
A pimenta não toca com a cabeça a face do pano branco
Leves são os passos de àtòrì, o Pai falou (decretou)

Fonte: Pesquisa Ewé – O Uso das Folhas na Religião Yorùbá, de José Flávio P. de Barros e Hugo Napoleão – Ewé -Pierre Verger

Acervo cultural: Ilé Àse Òsòlúfón Íwìn

Algumas Fontes para pesquisa sobre o assunto do post:

  1. Journal of Ethnopharmacology (2018) – Estudo sobre propriedades anti-inflamatórias.
  2. Verger, P. Ewé: O Uso das Plantas na Sociedade Yorùbá (1995).
  3. Documentação oral de terreiros de Candomblé (Bahia e Rio de Janeiro).

O Melhor Substrato para Suas Plantas de Axé

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Neste tutorial completo, eu ensino passo a passo como fazer um substrato caseiro com terra, carvão e canela. A canela é um ótimo fungicida natural para plantas.

No vídeo abaixo você pode me acompanhar fazendo o plantio da Ewé Rínrín usando os seguintes materiais:

  • Terra comum;
  • Carvão vegetal triturado;
  • Canela em pó;
  • Argila expandida e manta de drenagem;

Perguntas Frequentes

Reuni alguns questionamentos frequentes sobre o Oriri e outras ervas sagradas, encontrados em redes sociais e ferramentas de busca na internet. Abaixo, respondo às principais dúvidas com informações precisas e fundamentadas na tradição Yorùbá e nas práticas afro-brasileiras.

Para que serve o oriri?

O Oriri (Ewé Rínrín) é utilizado tanto na medicina tradicional quanto em rituais espirituais. Serve para banhos de purificação, tratamentos de inflamações, dores articulares e problemas oculares, além de ser essencial em cerimônias de iniciação no Candomblé.

Qual o outro nome da erva oriri?

Conhecida como Ewé Rínrín na tradição yorùbá, também chamada de alfavaquinha-de-cobra, erva-de-jabuti ou coração-de-pomba em Cuba. Seu nome científico é Peperomia pellucida.

Como tomar banho com oriri?

Para se preparar um banho de folhas é necessário ter conhecimento a respeito do assunto. Não é recomendado basear-se em qualquer texto da internet sem antes ter a vivência e o conhecimento religioso para tal. Recomenda-se procurar por um sacerdote ou sacerdotisa capacitados para obter-se as orientações necessárias.

Como posso comer oriri?

As folhas jovens podem ser consumidas cruas em saladas (com sabor picante) ou refogadas. Na culinária afro-brasileira, é usada em pratos como acompanhamento ou em chás digestivos.

Qual é o significado da erva Oriri na Umbanda?

A Umbanda tradicional possui um uso mais restrito da maioria das folhas utilizadas no Candomblé, porém, no período contemporâneo, a busca por informações relacionadas a elementos que a Umbanda foi incorporando permitiu uma maior abrangência na assimilação de determinados elementos. Sendo assim, na Umbanda contemporânea, o Oriri é associado à limpeza espiritual e à conexão com Oxum. Usado em defumações e banhos para atrair harmonia e equilíbrio emocional, especialmente em trabalhos relacionados ao amor e à prosperidade.

Quais são os benefícios da Erva de Jabuti?

A Erva de Jabuti (Oriri) tem propriedades anti-inflamatórias, diuréticas e analgésicas. Beneficia problemas renais, dores de cabeça e inflamações oculares, além de auxiliar na digestão e no controle da pressão arterial.

Para que serve o banho de macassar na umbanda?

Todo e qualquer banho de ervas, no Candomblé, tem pro principal finalidade a purificação.

Qual é a planta de Oxum?

Oxum está ligada a várias ervas, como o Oriri (Ewé Rínrín), por exemplo. Essas plantas representam sua conexão com a água doce, a fertilidade e a cura, sendo usadas em banhos e até oferendas.

As respostas refletem conhecimentos tradicionais e usos consagrados. Para fins medicinais, consulte um profissional de saúde.


Escrevi esse artigo pensando em apresentar a Ewé Rínrín em suas múltiplas dimensões – botânica, ritualística e culinária – sem perder de vista seu contexto cultural. Evitei simplificações, mantendo a complexidade que o tema exige, mas com uma narrativa fluida. O resultado é esse material, organizado para informar tanto os leigos quanto pessoas iniciadas nos nossos mistérios do Candomblé e das religiões Africanas.

Você já conhecia a Ewé Rínrín? Experimentou seus usos medicinais ou culinários? Compartilhe suas experiências nos comentários e ajude a ampliar esse diálogo entre tradição e ciência.

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