Manifesto

Toda cidade que se esquece de suas raízes, se afasta do seu próprio povo.

Òrò Ìlú é uma expressão Yorùbá que pode ser traduzida como “a palavra que pertence à cidade” ou “o discurso para o bem coletivo”. Aqui, reunimos ideias, reflexões e diretrizes que nascem do compromisso com a dignidade do Povo de Axé e com o direito de existir plenamente nas estruturas da sociedade. Aqui, não se trata de opiniões soltas ou discursos vazios, mas de um espaço dedicado à escuta da ancestralidade e à construção de caminhos possíveis. O que será dito aqui não é apenas proposta: é semente. E toda semente carrega em si o futuro. 

Entenda o nosso manifesto, e some-se à nossa voz.

A quem interessar possa,

Um olhar de verdade ancestral

Eu não sou da direita, nem da esquerda.
Eu sou pra frente. E sem partido.

Um Homem de Axé não busca cargos.
Um Guardião das nossas tradições não se vende por favores.
Um Povo de Axé não clama por esmolas.

Minha missão é anunciar o tempo novo. Meu tempo é agora.

Um tempo em que as Casas de Axé deixam de ser invisíveis.
Em que tambores não sejam confundidos com barulho,
Mas reconhecidos como a voz de um povo que pulsa incessantemente
— apesar de tudo.

Estamos cansados.
Cansados do jogo de quem só lembra de nós de quatro em quatro anos.
Cansados de sermos escada para raposas de desejos espúrios,
Que se esquecem de onde veio o seu poder de decisão.

Quem coloca coroas nas cabeças de homens é o povo!

Chega de calar a boca diante de diplomas de mérito ilusório:
Comendador, Benemérito, Doutor Honoris Causa…
Isso não paga nossa dignidade.

Chega de palmas em datas comemorativas,
Criadas só para fingir que se faz alguma coisa.

Não devemos aceitar menos do que política pública
com responsabilidade contínua
.

Faço parte de um povo que paga imposto, que trabalha incansavelmente,
Que sangra para cuidar da terra, da folha e da água.
Um povo que alimenta o corpo com fruto plantado pelas mãos calejadas,
E que alimenta o espírito inquebrantável com rituais
Que nasceram muito antes da ideia de um Brasil.

Faço parte de um povo que se recusa a ser visto como uma “minoria”.
Nós somos parte. Parte de um todo.
Parte de uma sociedade que ainda precisa aprender muito
sobre como conviver com as diferenças.

Meu povo existe.
Meu povo é visto a todo momento — mesmo que ignorado quando não é tempo
de sugar os nossos esforços.
Mesmo que silenciado quando não é época de requisitar a força da nossa voz para somar-se a votos.

Meu povo resiste perante a ignorância.
Meu povo reexiste diante do apagamento.
Meu povo subsiste da sua própria inteligência e não aceita ser negligenciado pela arrogância de quem anda ao nosso lado, mas quando é conveniente
nos olha de cima para baixo.

Meu povo não é escravo de filosofias equivocadas.
Não é peão nas mãos de crianças elitistas que brincam de tradições alheias
para amenizar suas consciências pesadas.

Somos mães, pais, tios e tias, filhos e filhas de uma grande família
Que não se esquece da trajetória dos seus avós e avôs,
Nem dos que vieram ainda antes deles —
Uma família que anseia por honrar um legado sacralizado
Que para essas crianças mimadas não passa de pedra, ferro e louça vazia.

Mesmo diante do sofrimento, meu povo sempre respeitou a fé alheia,
O costume alheio, a tradição alheia.
Mesmo sob o asco causado pela chibata, não desrespeitou a tradição imposta,
O costume obrigatório, nem a religião que o castigava.

Nos doutrinaram a pedir por respeito,
Suprimindo os ensinamentos dos nossos mais velhos:

Se alguém precisa pedir por respeito, então esse alguém não é digno de ser respeitado.

Meu povo não precisa pedir por respeito.
Porque é hora de se levantar com os dentes cerrados,
Para que todos entendam: seremos respeitados.

Um povo que até hoje, para alguns, vive à margem do direito à cidadania,
ao culto e à existência plena —
Constantemente vilipendiado pelos desejos da raposa que ronda
a morada da galinha dos ovos de ouro.

Meu povo não é decoração cultural.
Não é quintal de ressignificações vazias.
Não é folclore adaptado para agendas de conveniência.
Somos povo! Somos herança viva.
E não aceitaremos mais ser pisoteados com gentileza.

Este manifesto permanece de pé e à ordem.
Em prontidão, em roda, de livre consciência,
Combatendo as ilusões que encabrestam os braços fortes desta nação.

E se hoje essa é manifestação de um pequeno pensamento,
Que ele ecoe até que nenhum representante da ancestralidade
precise mais esconder sua casa, esconder seus fios, esconder suas roupas,
esconder quem realmente é.

Que este manifesto seja a voz de qualquer um que tenha honestidade e coragem suficientes para dizer a si mesmo:

Eu sou um guardião do Candomblé.
Eu sou um Farol Ancestral.

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