Dança Contemporânea Africana: Como Irène Tassembédo Reinventa Corpo e Consciência

A dança contemporânea africana vive um momento de efervescência criativa, em que corações e corpos de toda a África se convergem em torno de uma mesma paixão: o movimento que conta histórias. Dos palcos de Burkina Faso aos festivais internacionais, artistas mesclam movimentos tradicionais e técnicas modernas para contar novas histórias. No centro desse movimento está a coreógrafa e ativista cultural Irène Tassembédo, fundadora da antiga Ebony Company — hoje Compagnie Irène Tassembédo — e idealizadora do Festival Internacional de Dança de Ouagadougou (FIDO) e da Escola de Dança Internacional Irène Tassembédo (EDIT), personifica o desejo de transformar a dança em ferramenta de coesão social, educação e denúncia política.



África em Movimento: Um Novo Cenário Coreográfico

Desde que estreou em 1988, Tassembédo vem reinventando a linguagem da dança ao fundir técnicas contemporâneas (como floor work e improvisação) com gestos tradicionais de diferentes povos africanos. Seu estilo multidisciplinar incorpora música ao vivo — flautas, nogni, bateria e percussão — e textos projetados, mas jamais de forma ilustrativa ou literal: a palavra, para ela, é provocação, não explicação. Assim, cada espetáculo torna-se um espaço de encontro entre o ancestral e o inovador, o corpo e o conceito, o ritual e o manifesto político.

Ao longo das últimas décadas, o continente africano deixou de ser mero cenário folclórico para se tornar laboratório de inovação na dança.

  • Festivais como o FIDO (Festival Internacional de Dança de Ouagadougou) atraem companhias de Europa, América e Ásia, fomentando intercâmbio artístico.
  • Público diversificado: jovens urbanos, comunidades rurais e plateias globais descobrem na dança um espaço de pertencimento e diálogo cultural.
  • Convergência de tradições: máscaras, gestos rituais e ritmos percussivos se fundem a técnicas como floor work, release e improvisação, gerando um vocabulário coreográfico insólito.

“Motivados pelo mesmo amor ao movimento, diferentes cantos e culturas encontram na arte um fator de coesão social, um modo de redescobrir a África”, observa a própria Tassembédo.


Irène Tassembédo: A “Grande Femme” da Dança Africana

Nascida em Ouagadougou, Burkina Faso, Irène Tassembédo construiu uma carreira única:

  • 1988: funda a Ebony Company, primeira semente de sua visão artística.
  • Anos 1990–2000: prêmios internacionais e turnês na França, Alemanha, Estados Unidos, Japão…
  • Hoje: dirige a Compagnie Irène Tassembédo, oferece formação contínua na Escola de Dança Internacional Irène Tassembédo (EDIT) e coordena o FIDO.

Sua arte é marcada por:

  1. Multidisciplinaridade – dança, teatro, música ao vivo, artes visuais.
  2. Educação permanente – a EDIT forma bailarinos e criadores de todo o continente.
  3. Franqueza política – Tassembédo usa o palco para denunciar injustiças e estimular reflexões coletivas.

“Le Manteau”: Dançando com Números e Emoções

Em Le Manteau (“O Casaco”), que estreou no encerramento do FIDO 2014, Tassembédo traz ao palco dados surpreendentes: esperança de vida, gastos em saúde, produção de matérias-primas e êxodo de profissionais africanos. Tudo isso costurado por uma coreografia africana intensa, onde seis bailarinos carregam um casaco vermelho — metáfora das feridas históricas de Mãe África. É um espetáculo sem respostas prontas: o público sai instigado a refletir sobre as contradições do continente. “Porque eu sou humana. Como eu poderia falar de outra coisa?”, diz a coreógrafa, lembrando que a arte de verdade não se esquiva da urgência dos temas.

  • Formato: 70 minutos; 6 bailarinos; 3 músicos ao vivo (flautas, nogni, bateria e percussão).
  • Narrativa estatística: dados projetados sobre saúde, fome, extração mineral, êxodo de profissionais…
  • Metáfora central: o casaco “vermelho de raiva e de cólera” representa as feridas históricas de Mãe África.

Sem “remates” ou didatismo forçado, a coreógrafa deixa o público refletir: os números voltam à carne e ao movimento, convidando cada espectador a sentir o peso e a urgência desses temas.


Coreografia Africana: Ética e Igualdade em Cena

O processo de criação de Tassembédo é tão vivo quanto seu resultado. Durante meses, movimentos e músicas são revisados sem dó, até a versão final nascer apenas na última semana de ensaios. Essa instabilidade busca manter o frescor e a autenticidade dos gestos, evitando que a performance vire rotina. Nesse sentido, ela recusa o rótulo “dança contemporânea”, afirmando que qualquer definição fechada se torna um “quadrado limitador”. Para Tassembédo, cada gesto é “sentimento em carne viva”, e pergunta-se por que na dança clássica ninguém questiona quais raízes tradicionais ela carrega.

  • Corpo como cultura: recusa categorizações rígidas (ela não gosta do rótulo “contemporânea”). Cada gesto nasce de “sentimentos reais”, não de técnica vazia.
  • Inclusão genuína: em Le Manteau, o bailarino Solo Béton, deficiente físico, ocupa o palco por seu talento, não como “símbolo”. “Quero que ele corra como ele, não como eu”, afirma a diretora.
  • Seleção colaborativa: bailarinos são escolhidos pela opinião própria, capazes de questionar e enriquecer o processo criativo.

Igualdade e inclusão também são marcas registradas de seu trabalho. Em Le Manteau, o bailarino Solo Béton, deficiente físico, não é simbolismo nem nota de rodapé — sua presença curriculariza a ideia de que a dança pertence a todos. “Eu não quero que ele corra como os outros, eu quero que ele corra como ele”, enfatiza Tassembédo. Essa abordagem reflete sua visão de que um coreógrafo deve elevar o potencial singular de cada intérprete, em vez de enquadrá-lo num molde pré-estabelecido.


Dança Contemporânea Africana: A Dinâmica de Criação e ensaios que Respiram Vida

O método de trabalho de Tassembédo mistura rigor e espontaneidade:

  1. Montagem tardia: espetáculo e trilha só se fecham na última semana de ensaios. Isso mantém a surpresa e o frescor de cada apresentação.
  2. Música ao vivo: instrumentos tradicionais e composições originais respondem em tempo real ao movimento dos dançarinos.
  3. Adaptação contínua: gestos, ritmos e até texto projetado podem mudar até o último segundo, garantindo autenticidade e impacto.

Legado e Perspectivas

FIDO como palco global

  • Conecta mais de 30 companhias em programações intensas.
  • Gera workshops e residências, impulsionando uma nova geração de coreógrafos africanos.

EDIT e a formação

  • Oferece cursos regulares, masterclasses e laboratórios de criação.
  • Visa profissionalizar a dança africana, criando referências e redes de colaboração.

O FIDO, hoje consolidado em sua segunda edição, é extensão dessa filosofia. Reunindo mais de 30 companhias de quatro continentes em oito noites consecutivas, o festival não só projeta a coreografia africana no cenário global como também impulsiona a criação local. Paralelamente, a EDIT vem formando gerações de bailarinos e criadores que dialogam com a herança cultural sem medo de questioná-la. Este modelo de formação permanente e colaborativa reafirma a noção de que a dança africana contemporânea não é um produto exótico, mas um modo de ver o mundo.

A trajetória de Irène Tassembédo mostra que a dança contemporânea africana é muito mais que estética: é ferramenta de transformação social, manifestação de identidade e ponto de encontro entre passado e futuro. Cada espetáculo reforça que o corpo africano é agente político e poético, capaz de narrar dores e esperanças.

Se a dança é, para a artista, expressão política e territorialização do corpo, seu legado vai além do palco. Em cada passo, seus espetáculos lembram que a África é um mosaico de histórias, lutas e esperanças — e que o movimento pode ser remédio, arma e celebração. Ao colocar dados concretos ao lado de gestos performáticos, ela nos faz lembrar que o corpo é arquivo e memória, mas também convite à ação.


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Umbanda: 5 assuntos em um documentário brasileiro - capa
Leandro

Umbanda: 5 Assuntos em um Documentário Brasileiro

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Dos ritmos pulsantes da música à imagética vibrante e simbolismo que permearam a cultura popular, a marca da Umbanda é inegável. Além disso, a capacidade da religião de se adaptar e incorporar novos elementos, mantendo seus princípios fundamentais, permitiu que ela permanecesse relevante e ressonante no mundo moderno. À medida que mais indivíduos buscam realização espiritual e um senso de comunidade, a mensagem de harmonia, cura e inclusividade da Umbanda continua a atrair novos devotos, garantindo seu legado duradouro como uma tradição espiritual única e transformadora. Abraçando a Jornada Espiritual Em última análise, o verdadeiro poder da Umbanda reside em sua capacidade de inspirar o crescimento pessoal, fomentar a comunidade e conectar os indivíduos com o divino. Seja alguém um praticante de longa data ou um curioso buscador, a jornada da Umbanda oferece uma experiência profunda e transformadora, convidando todos que estão dispostos a abraçar a harmonia, a cura e a riqueza espiritual que essa notável religião tem a oferecer. Um Trabalho Bonito de Umbanda: Documentário O documentário Um Trabalho Bonito de Umbanda é um documentário que expõe a história da religião brasileira Umbanda e suas práticas. Através de entrevistas com umbandistas e estudiosos do assunto, o filme desvenda e desmistifica a religião, fundada no Rio de Janeiro em 1908 por Zélio Fernandino de Moraes, ou simplesmente Zélio de Moraes como ficou conhecido, através da sincretização de crenças de origem africana, europeia e indígena. – Elisa Herrmann Quem é Elisa Herrmann? Elisa Herrmann, cineasta brasileira, tem uma sólida formação acadêmica em Arte Educação, Comunicação Audiovisual e Relações Internacionais, com mestrado em Comunicação de Massa e Artes Midiáticas e doutorado em Liderança do Ensino Superior. Bolsista Fulbright, ela produziu e dirigiu curtas premiados em festivais internacionais, incluindo o documentário “Rodrigo Herrmann – Vida e Obra”, exibido no Festival de Cannes. Seu primeiro longa, “Um Trabalho Bonito de Umbanda”, lançado no Museu de Belas Artes de Houston, acompanhou a exposição Histórias Afro-Atlânticas. Atualmente, leciona Cinema e Televisão na Sam Houston State University e coordena o Curso de Cinema. Prêmios: Undocumented: A Dream of Education (documentário de curta-metragem): Um Trabalho Bonito de Umbanda (documentário de longa-metragem): A Grande Aventura das Senhoritas Bentley (roteiro de longa-metragem): Rodrigo Herrmann – Vida e Obra (documentário de curta-metragem): A Envenenadora (curta-metragem experimental): Death Expectancy (roteiro de curta-metragem): The Gaze (O Olhar) (curta-metragem de ficção): 3 ½ Minutes (curta-metragem experimental): Exibições Artísticas: My Not-So-Righteous Life (roteiro de longa-metragem): Undocumented: A Dream of Education (documentário de curta-metragem): A Neve de Curitiba (documentário de curta-metragem): Um Trabalho Bonito de Umbanda (documentário de longa-metragem): A Culpa é do Smiley (documentário de curta-metragem): The Great Adventure of the Bentley Girls (roteiro de longa-metragem): Rodrigo Herrmann – Vida e Obra (documentário de curta-metragem): Death Expectancy (roteiro de curta-metragem): In The Eyes of Others (curta-metragem de ficção): a morte do poeta (curta-metragem experimental): A Redenção da Bicicleta (curta-metragem de ficção): Informações pesquisadas no site da Filmmaker, Cineasta, Elisa Herrmann. 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